A inteligência artificial agêntica (IA agêntica) é a grande estrela da edição deste ano do Mobile World Congress (MWC26), em Barcelona. Se no ano passado o termo ainda não havia se popularizado, agora é difícil entrar em um estande que não apresente alguma solução com agentes de IA, sejam marcas de smartphones, operadoras móveis ou fabricantes de infraestrutura.
No caso dos fabricantes das redes de telecomunicações, a construção de agentes de IA faz parte do processo de evolução para redes autônomas. Em um primeiro momento, engenheiros de telecomunicações de uma operadora poderão se comunicar por linguagem natural com um agente em sua rede para solicitar alguma reconfiguração de parâmetros, ou para solicitar informações específicas sobre determinado serviço ou parte da rede. Em um futuro ainda distante, contudo, o agente poderá antecipar intenções e cuidar de tudo sozinho, sem a necessidade de interação – esse seria o nível máximo de autonomia de uma rede móvel, dentro de uma escala de um a cinco definida pelo TM Forum (veja abaixo).

Níveis de automação de redes móveis, de acordo com TM Forum (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
A Ericsson demonstrou em seu estande como seria um agente de IA para ser controlado por engenheiros de telecom de operadoras a partir de linguagem natural. A proposta é conectá-lo aos chamados rApps, aplicativos para a realização de determinadas tarefas sobre a rede de acesso. Uma solução da Ericsson para a criação de agentes de IA com rApps foi lançada na feira em parceria com a AWS. A operadora brasileira Vivo é uma das primeiras no mundo a experimentar um rApp com a Ericsson, neste caso, para a detecção de anomalias em células da rede. Por enquanto, o agente apenas fornece automaticamente relatórios, mas a ideia é que dentro de alguns meses a Vivo experimente a interação conversacional com o agente desse rApp.

Agentes de IA para rApps no estande da Ericsson (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
Por sua vez, a Nokia vai lançar este ano uma solução de criação de agentes que fazem a ponte entre as redes das operadoras e agentes de terceiros que podem fazer requisições a APIs das teles, como aquelas do Open Gateway. Uma emissora de TV que faz transmissão ao vivo através de 5G poderia construir um agente para se comunicar com a rede da sua operadora e solicitar mais banda pela API de QoD quando detectar alguma deterioração do sinal, por exemplo. A comunicação entre os agentes acontece através do protocolo MCP.

Agentes de IA conectados a APIs de rede em solução da Nokia (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
A Huawei também apresentou uma solução batizada como RANSpirit, que consiste em um agente de gestão de rede de acesso (RAN). A ideia é treinar um modelo fundacional com a operadora-cliente para aperfeiçoá-lo, e construir gêmeos digitais da rede para poder testar o impacto de quaisquer alterações de configurações antes de sua implementação.
IA agêntica gerando serviços de valor adicionado
No MWC26 também foram apresentadas possibilidades de serviços de valor adicionado com IA agêntica para serem oferecidos pelas operadoras móveis aos seus assinantes.
A sul-coreana LG+ U lançou há um ano um agente chamado IXI, capaz de ouvir as chamadas telefônicas e intervir sob solicitação do usuário ou até mesmo de maneira pró-ativa, se perceber que é uma situação de perigo. Por exemplo, se o assinante receber o telefonema de um golpista e estiver prestes a ser enganado, o IXI emite um alerta na tela do smartphone. O serviço por enquanto é gratuito e conta com 1 milhão de usuários na Coreia do Sul. O IXI pode ser ligado ou desligado quando o cliente quiser.

Exemplo de tela do IXI (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
Outra possibilidade para as operadoras é oferecer um serviço de tradução simultânea através de agentes de IA embutidos na rede. A Huawei disponibiliza essa solução na China para tradução de mandarim, inglês e árabe. Durante uma chamada, o assinante ativa o serviço com um botão e a partir daí tudo o que falar será traduzido automaticamente para o seu interlocutor do outro lado da linha. É um serviço prestado a partir da rede, viabilizado por um core agêntico da Huawei. Desta forma, funciona em qualquer celular, independentemente do modelo.

Core agêntico da Huawei (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
Smartphones com agentes de IA
Os agentes de IA também estão sendo embarcados nos smartphones pelos seus fabricantes, especialmente nos modelos de alta gama. Essa é uma das grandes novidades do novo top de linha da Samsung, o S26, anunciado na semana passada e exibido no estande da marca no MWC26, em Barcelona. Um agente pode acompanhar sessões de bate-papo em apps como WhatsApp e sugerir ações que envolvem a abertura de outros aplicativos, como o compartilhamento de uma foto.
A Motorola, por sua vez, desenvolveu um agente de IA chamado Qira que será embarcado em seus futuros modelos. Ele é acionado através de um botão lateral, interage através de linguagem natural e é capaz de executar ações em qualquer app instalado no aparelho, ou mesmo combinando múltiplos aplicativos.
Análise
Agentes de IA não são uma moda passageira. A interface conversacional abre uma série de novas possibilidades inexistentes na interface visual. Em ambientes digitais com menus extensos e complexos, a interface conversacional é mais fácil de usar do que a navegação por botões. Além disso, permite que pessoas sem conhecimento técnico expliquem o que desejam com suas próprias palavras e alcancem o resultado desejado. É uma interface mais acessível e que pode democratizar a utilização de serviços variados.
O que precisa ser observado, no caso de agentes, são os limites da sua autonomia. Até onde cada agente pode ir. Da mesma forma que se definem guardrails para a IA não alucinar, é preciso ser cuidadoso na definição dos limites de autonomia dos agentes.
Diversos cases de agentes de IA no Brasil e painéis de discussão com especialistas no tema farão parte da agenda do 11º Super Bots Experience, evento organizado por Mobile Time nos dias 18 e 19 de agosto, no WTC, em São Paulo.

