À medida que o Fintech Americas avança, fica mais claro que os principais desafios do sistema financeiro já não estão mais na superfície da inovação, mas em questões estruturais que seguem sem solução. O evento, que reúne bancos, fintechs e executivos globais, reforça uma mudança importante no debate: mais do que discutir novas tecnologias, o foco passa a ser como repensar modelos de negócio e resolver, de fato, problemas históricos do setor.

Nesse contexto, o tema do crédito aparece como uma das principais lacunas do mercado. Apesar dos avanços em bancarização, uma parcela relevante da população e das empresas ainda não consegue acessar crédito de forma efetiva. Em alguns mercados, menos de 25% têm acesso, evidenciando um gap significativo. O problema, portanto, não está na demanda, mas na incapacidade dos modelos atuais de atender esse público de forma adequada.

Essa limitação está diretamente ligada ao próprio desenho do sistema. O modelo tradicional de crédito foi construído para um perfil específico e, na prática, acaba excluindo milhões de pessoas e pequenos negócios. Por isso, novas abordagens começam a ganhar espaço, com destaque para o uso de dados transacionais na avaliação de risco e capacidade de pagamento, permitindo uma leitura mais dinâmica e aderente ao comportamento financeiro real dos clientes.

Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de modelos mais flexíveis, capazes de acompanhar o fluxo de caixa em tempo real. Em segmentos como pequenos negócios e e-commerce, a lógica de análise em ciclos fixos perde relevância, abrindo espaço para decisões mais rápidas e contextualizadas. Essa mudança aponta para um novo padrão de concessão de crédito, mais conectado à rotina financeira do cliente.

No entanto, essa evolução esbarra em um desafio relevante. Muitas instituições ainda operam com sistemas legados, que limitam velocidade, integração e capacidade de adaptação. Isso dificulta a implementação de novos modelos e reduz a capacidade de inovação. Por outro lado, novos players, já estruturados sobre bases mais modernas, conseguem evoluir com maior agilidade e capturar essas oportunidades com mais rapidez.

Esse ponto se conecta diretamente com outra discussão central do evento: o papel da infraestrutura na evolução da inteligência artificial. O debate avança além dos casos de uso e evidencia que o principal desafio não está na aplicação final, mas na base que sustenta a tecnologia. Dados organizados, governança bem definida, integração entre sistemas e arquitetura consistente são os elementos que permitem que a IA funcione e escale de forma efetiva.

Além do desafio técnico, a adoção da inteligência artificial também passa por uma mudança de comportamento dentro das organizações. Não basta implementar ferramentas se elas não são incorporadas ao dia a dia das equipes. Em casos mais avançados, a adoção em larga escala acontece quando há treinamento, mudança de cultura e liderança, direcionando esse movimento de forma ativa.

Outro ponto relevante é a governança. À medida que sistemas passam a apoiar decisões cada vez mais críticas, cresce a necessidade de controle e supervisão. Em determinados contextos, especialmente aqueles com impactos mais sensíveis, a presença de uma camada humana no processo se torna essencial para garantir segurança, qualidade das decisões e mitigação de riscos.

No fim, a convergência das discussões aponta para um direcionamento claro. A oportunidade de crédito na América Latina é enorme, mas exige uma ruptura com os modelos tradicionais e uma evolução consistente da infraestrutura que sustenta o sistema financeiro. Mais do que inovar, o desafio agora é executar com profundidade, conectando tecnologia, dados e modelo de negócio para resolver problemas reais de forma escalável.

 

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