Recentemente participei de um curso na Columbia Business School, em Nova York, sobre o futuro dos negócios e das nações diante das transformações provocadas pela inteligência artificial. Não era um curso técnico, tampouco voltado para aplicações práticas de IA. O foco era mais amplo: compreender o ecossistema que sustenta essa tecnologia e seus impactos geopolíticos, sociais e econômicos.
O professor Moran Cerf, coordenador do curso, apresentou “os seis pilares do ecossistema de IA”: hardware, software, dados, pessoas, pesquisa e desenvolvimento e energia. Juntos, tais pilares formam a base que permite à IA se expandir e se tornar uma interface essencial para as próximas décadas. É um arcabouço que vai muito além da narrativa simplista que reduz inteligência artificial a algoritmos ou aplicações utilitárias.
Mas foi outra fala, do professor Hod Lipson, que me provocou de maneira mais profunda, e que faz cada vez mais sentido agora, quando a IA se infiltra de forma acelerada na sociedade. Ele argumentou que o celular foi a grande disrupção da internet. A “world wide web” já existia, mas foi o smartphone que a tornou ubíqua. A mobilidade permitiu que a internet deixasse de ser concentrada em escritórios e domicílios para se tornar acessível e móvel, sempre à mão.
Acontece que Lipson acrescentou um ponto: ao contrário da internet móvel, a inteligência artificial será uma tecnologia que não poderemos desligar. Ou seja, quando desligamos nosso aparelho celular, automaticamente ficamos offline. Mas no caso da IA, não conseguiremos nos afastar dela.
Ela seguirá operando em laboratórios, em pesquisas científicas, em rotinas de diagnóstico na área de saúde, em sistemas de mobilidade urbana, em dispositivos conectados, na infraestrutura de cidades inteligentes e até nos algoritmos que analisam continuamente nossos sinais biométricos.
A IA funciona mesmo quando não interagimos com ela. Em muitos casos, mesmo quando não sabemos que ela está ali. Se a mobilidade tornou a internet onipresente, a inteligência artificial está inaugurando algo novo: a tecnologia permanente.
Isso tem implicações diretas não apenas para o setor de telecomunicações, mas para qualquer serviço digital que dependa de mobilidade, conectividade e análise de dados – em outras palavras, todas as áreas do conhecimento humano. A perenidade da IA altera a forma como pensamos privacidade, autonomia, regulação, segurança e inovação. Exige que governos, empresas e usuários compreendam que estamos entrando numa era em que a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma camada contínua da vida humana.
A novidade, então, não é apenas a inteligência artificial como interface. É sua perenidade, sua incapacidade de ser desligada, e a consequência disso para um mundo em que as decisões, das mais triviais às mais complexas, serão mediadas por sistemas que operam, aprendem e influenciam em tempo integral.
A mobilidade nos acostumou a acessar a internet de qualquer lugar. A IA está nos acostumando a viver em um ambiente digital que nunca pausa. E esse talvez seja o verdadeiro ponto de inflexão da atual transição midiática e tecnológica que vai nos abrir novos e inesperados caminhos. Afinal, conforme a definição do programa da Columbia Business School, a IA se estabelecerá como “the most disruptive innovation, that changes everything”.
A imagem no topo foi gerada por IA pelo autor com base na leitura do artigo


