Em fevereiro de 2025, o maior sistema público de ensino superior dos Estados Unidos fez um anúncio que passou quase despercebido fora dos círculos acadêmicos. A California State University, com mais de 460 mil alunos em 23 campi, fechou contrato com a OpenAI para dar acesso ao ChatGPT a todos os seus estudantes e funcionários. Custou 17 milhões de dólares por dezoito meses. Há poucas semanas, o contrato foi renovado por mais três anos, a 13 milhões de dólares por ano, agora cobrindo 675 mil pessoas. Depois de formados, os alunos continuarão com acesso à ferramenta por mais um ano.
Esse último ponto é a chave de tudo. O acordo não visa apenas vender o software para uma universidade, mas sobretudo capturar o momento em que uma pessoa aprende a pensar com uma ferramenta e fazer dela a ferramenta padrão para o resto da vida profissional. A própria Bloomberg, ao revelar que a OpenAI já vendeu mais de 700 mil licenças de ChatGPT para cerca de 35 universidades públicas americanas, descreveu o movimento sem rodeios: a empresa está garantindo a dianteira para se tornar o assistente da próxima geração de trabalhadores.
É uma corrida, e nela temos três corredores. A OpenAI larga na frente no ensino superior americano. O Google ataca pela base, com um fundo de 120 milhões de dólares para programas de IA na educação, o Gemini chegando às contas escolares de adolescentes e, em Londres, uma universidade de IA financiada pela própria empresa e inaugurada pelo primeiro-ministro britânico. A Anthropic, criadora do Claude, abriu sua frente acadêmica em abril de 2025, começando pela Northeastern, com cerca de 50 mil usuários, e somando depois LSE, Columbia, Pittsburgh e outras. Quando a Estônia montou o programa de IA mais ambicioso do mundo para as suas escolas, negociou ao mesmo tempo com OpenAI e Anthropic. Os três querem a mesma coisa, e ela não é exatamente dinheiro.
O modelo de negócio aqui é antigo, mas com uma mercadoria nova. O Google não conquistou o e-mail e o navegador do mundo corporativo cobrando caro. Conquistou dando de graça para estudantes, que levaram o hábito para o trabalho e nunca mais saíram. A Microsoft fez o mesmo com o pacote Office dentro das universidades por décadas. Oferecer a ferramenta de graça, ou quase, na fase formativa é a maneira mais barata de comprar uma geração inteira de usuários cativos. A diferença é que, desta vez, a mercadoria não é uma planilha. É o sistema com que a pessoa vai aprender a pesquisar, escrever, organizar raciocínios e tomar decisões.
O canal mais eficiente dessa distribuição é o aparelho que o estudante carrega o dia inteiro. Boa parte do uso de IA no estudo passa hoje pelo celular, e é ali que a disputa pela ferramenta padrão se decide com menos alarde. Em junho de 2026, em sua conferência de desenvolvedores, a Apple apresentou uma Siri reconstruída sobre um modelo Gemini do Google, em contrato estimado pela Bloomberg em cerca de 1 bilhão de dólares por ano, o que torna a IA do Google a inteligência padrão de mais de um bilhão de iPhones, com ChatGPT e Claude oferecidos como alternativa. No Android, o Google vem trocando o antigo Assistente pelo Gemini como padrão dos aparelhos. Quando o celular já chega com uma IA definida de fábrica, a ferramenta com que o adolescente pesquisa e escreve deixa de ser escolha dele ou da escola e passa a depender da marca do telefone.
E o aluno não é só o cliente futuro, mas também o produto presente. Ainda que parte desses contratos restrinja o treinamento direto dos modelos com dados acadêmicos, a escala de uso dos estudantes produz vantagem competitiva, aprendizagem operacional e dependência tecnológica. A universidade entrega, de uma vez, a clientela de amanhã e o terreno onde a empresa aprende a vencer.
A conta começa a incomodar quando se olha o contexto. A Cal State assinou o contrato com a OpenAI no mesmo período em que enfrentava um corte de centenas de milhões no orçamento estadual, demitindo, fechando cursos e reduzindo turmas. Pagar milhões a uma empresa de tecnologia enquanto se corta professor levantou, com razão, perguntas sobre prioridades, e parte do corpo docente e dos alunos se recusou a usar a ferramenta. A justificativa oficial foi a equidade: garantir que o aluno pobre, muitas vezes o primeiro da família na universidade, tenha o mesmo acesso que o rico. O argumento é legítimo, e é também exatamente o mesmo que sempre serviu para naturalizar a captura de mercado. Equidade e dependência, aqui, entram pela mesma porta.
Há algo maior por baixo disso, que vai além do orçamento de uma universidade. Quem controla a IA que ensina molda, em alguma medida, como uma geração inteira formula perguntas e aceita respostas. Não é pouco poder para se entregar sem debate a um punhado de empresas, todas sediadas no mesmo país.
No Brasil, o problema tem um nome que a gente prefere não dizer: dependência. Não temos um modelo de fronteira nacional. Quando o debate brasileiro sobre IA na educação amadurecer, e ele está só começando, a pergunta não será com qual das três empresas americanas vamos nos associar. Será se teremos qualquer assento à mesa, ou se vamos apenas consumir o que OpenAI, Google e Anthropic decidirem oferecer, nos termos delas, com os dados dos nossos estudantes. O documento de diretrizes que o Conselho Nacional de Educação apresentou em março trata, com cuidado, de ética, de privacidade e do papel do professor. Fala pouco da pergunta que mais importa do ponto de vista estratégico: de quem é a ferramenta.
Decidir como usar a IA na sala de aula é importante. Decidir de quem é a IA que entra na sala de aula é uma questão de soberania. E essa, no Brasil, ainda não foi sequer formulada.


