|Mobile Time Latinoamérica| A saída progressiva da Telefónica de vários mercados da América Latina não é um movimento improvisado nem uma reação a uma crise conjuntural. Trata-se do desfecho de uma estratégia definida há quase uma década, que hoje marca um ponto de inflexão para a indústria regional de telecomunicações, com impactos diretos sobre a concorrência, os investimentos e o papel dos reguladores.

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Geusseppe González, Head de LATAM da Access Partnership (crédito: divulgação)

Desde 2017–2018, a empresa espanhola anunciou uma mudança em suas prioridades globais: concentrar-se como operadora integrada em mercados considerados estratégicos — como Espanha, Alemanha, Reino Unido e Brasil — e reduzir gradualmente sua exposição no restante da região. Esse movimento se materializou com a criação da Telefónica Hispanoamérica, que agrupou as operações latino-americanas (exceto o Brasil) sob uma lógica de menor investimento e preparação para a desmobilização.

“O que estamos vendo hoje é o último passo de uma estratégia definida há sete ou oito anos”, explica à Mobile Time Latinoamérica Geusseppe González, Head de LATAM da Access Partnership. “Não é que a Telefónica esteja falida; é que o retorno esperado deixou de ser atrativo diante do esforço de investimento exigido pela região.”

Uma saída anunciada, com causas estruturais

A retirada ocorreu de forma gradual: primeiro com uma redução contínua dos investimentos; depois com a saída de negócios móveis — como aconteceu no México — e, posteriormente, com a venda de ativos não estratégicos, como torres, antenas, data centers, escritórios e terrenos em diferentes países.

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José Ignacio Díaz, Senior Research Analyst de Industry Intelligence da IDC (crédito: divulgação)

Para José Ignacio Díaz, Senior Research Analyst de Industry Intelligence da IDC, a decisão responde tanto a fatores financeiros quanto a um contexto estrutural complexo. “A América Latina tem sido historicamente um mercado volátil, com alta competição de preços, margens baixas e elevado risco de crédito. Isso reduziu o apelo para investimentos de longo prazo”, afirma.

A isso se soma o impacto do risco cambial: receitas em moedas locais que, ao serem convertidas em euros, corroem significativamente a rentabilidade. A pressão competitiva de grupos como América Móvil e Millicom, somada a mercados já maduros, acabou inclinando a balança.

No entanto, a realidade varia de país para país. Enquanto na Argentina a venda da operação para a Telecom acendeu alertas sobre concentração de mercado e foi suspensa pelo governo Milei, no Peru a aquisição pela Integra Tec — um operador com lógica de fundo de investimento — introduziu um novo enfoque centrado na rentabilidade, inclusive deixando de fora clientes menos lucrativos.

“O problema surge quando uma única empresa é a única que chega a regiões afastadas. Nesses casos, o regulador precisa garantir o bem-estar social, seja por meio de subsídios ou de esquemas de parceria público-privada”, alerta Díaz.

Chile: mercado avançado, mas pouco rentável

O caso chileno ilustra claramente as tensões enfrentadas pelo setor na região. Apesar de ser um dos países mais avançados no desenvolvimento do 5G — com coberturas próximas de 90% — a Telefónica ainda não conseguiu concluir a venda de sua operação.

“O Chile é um dos mercados mais exigentes do mundo: preços muito baixos, alta pressão competitiva, um regulador ativo e usuários com expectativas elevadas de qualidade de serviço”, explica Díaz. Esse ambiente reduziu significativamente as margens, mesmo em um mercado com alto nível de adoção tecnológica.

Além disso, qualquer potencial comprador enfrenta forte escrutínio regulatório, já que operadores como Entel ou América Móvil poderiam concentrar poder excessivo de mercado.

Colômbia: liderança regulatória, mas sem um rumo claro

A Colômbia ocupa um lugar particular nesse processo. Historicamente referência regional em política pública digital e regulação do setor, o país enfrenta hoje um cenário confuso diante da saída da Telefónica, da fusão entre Tigo e Movistar, da venda da participação estatal na UNE e das dificuldades de novos entrantes.

“Não se percebe uma rota clara nem uma pedagogia suficiente para a indústria e os usuários”, afirma González. A isso se soma o leilão de espectro 5G de 2023 que, embora bem-intencionado, impôs obrigações iguais a operadores com capacidades muito diferentes.

Millicom e o novo equilíbrio regional

Nesse contexto, a Millicom (Tigo) emergiu como uma das principais compradoras dos ativos da Telefónica em países como Colômbia, Equador, Uruguai e na América Central. Seu papel tem sido fundamental para viabilizar a transição, embora levante questionamentos.

“Que a Millicom compre não significa automaticamente que seja bom ou ruim; tudo dependerá de como a concorrência, o investimento e a cobertura se ajustem no médio prazo”, ressalta González.

Menos operadoras significa pior concorrência?

O debate sobre concentração permanece aberto. Para os analistas, o número de operadoras não é o fator determinante. “Você pode ter dois operadores e uma concorrência ruim, ou sete operadores e uma concorrência igualmente fraca”, afirma González. “O essencial é a intensidade competitiva: preços, qualidade, cobertura e inovação.”

Casos como Brasil e Chile, com poucos atores e alto nível tecnológico, contrastam com países como Colômbia e México, onde um operador dominante garante cobertura em áreas remotas.

Reguladores diante de um cenário inevitável

A saída de um ator histórico obriga os reguladores a revisar cuidadosamente os impactos sobre concorrência, cobertura e qualidade do serviço. Impedir a saída, porém, não é uma opção realista.

“No momento em que há poucos atores, o poder de mercado aumenta. Cabe ao regulador estar atento para evitar prejuízos à concorrência e, sobretudo, aos usuários”, adverte Díaz.

2026: cautela e redefinições

Para 2026, o setor de telecomunicações na América Latina entra em uma fase de ajuste. As empresas devem se concentrar na integração de operações, na renegociação de compromissos regulatórios e na espera por definições políticas.

“Não vejo grandes investimentos nem movimentos disruptivos no curto prazo. Estamos em uma fase de reorganização”, conclui Díaz.

O consenso é claro: sem uma cooperação mais estreita entre o setor público e o privado, a região corre o risco de desacelerar seu desenvolvimento digital justamente quando a conectividade se tornou infraestrutura crítica para a economia e a inclusão social.

A imagem no alto foi produzida por Mobile Time com IA

 

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