A inteligência artificial vai alterar completamente o tráfego nas redes móveis, conforme surjam aplicações de IA física que demandem inferência sobre imagens geradas em tempo real. Isso vai aumentar o tráfego de uplink e demandar um redesenho das redes. Para o presidente da Ericsson no cone Sul da América Latina, Rodrigo Dienstmann, um dos caminhos para diminuir a latência e viabilizar certas aplicações será através do Edge Computing nas torres de telecom, o que representará uma nova oportunidade de monetização para as teles.
Em entrevista para Mobile Time durante o MWC26, em Barcelona, o executivo da Ericsson falou também sobre a evolução da autonomia das redes, a implementação de IA agêntica na gestão da infraestrutura e a capacidade futura das redes 6G de enxergarem qualquer objeto dentro da sua área de cobertura.
Mobile Time – Na abertura do MWC este ano as operadoras apontaram para novos caminhos de monetização das redes 5G, como o processamento de tokens, serviços de segurança digital e até o apoio a projetos de soberania digital. Quais foram os outros destaques desta edição da feira na sua opinião?
Rodrigo Dienstmann – Tem um ponto adicional que são as redes autônomas. Assim como os carros serão autônomos, no futuro, as redes vão ser também. Mas, recapitulando tudo o que você falou, monetização do 5G é um tema imprescindível e já passou a ser realidade, não é só experiência de laboratório. Para você ter uma ideia, no Super Bowl desse ano, as três operadoras norte-americanas, AT&T, T-Mobile e Verizon, estavam vendendo slices da rede 5G. A T-Mobile vendeu slice para POS e para drone; a Verizon, para câmeras de alta definição wireless; e a AT&T, o Turbo Boost, para os seus clientes dentro do estádio garantirem o uplink.
Qual será o impacto da IA sobre as redes de telecomunicações?
As empresas dos mercados mais maduros já estão sentindo o efeito da IA nas redes. Não se trata de um monte de gente consultando chat ou gerando imagem. Isso não gera tráfego porque é basicamente texto. O efeito no uplink está vindo de dispositivos que estão capturando imagens para serem inferidas em algum lugar na nuvem. São os óculos da Meta, são câmeras de segurança etc. Já se nota o aumento do uplink. A capacidade de uplink é o próximo desafio e a próxima oportunidade de monetização das operadoras. A IA física vai ser muito intensa em consumo de uplink. As operadoras vão ter que mudar completamente o modo como fazem a engenharia das suas redes. Elas hoje são projetadas para downlink. O que você compra são Gigabytes de downlink. Você não compra uplink. Então, as operadoras estão se preparando para monetizar isso, mas vão ter que redesenhar suas redes. Porque o uplink é muito mais complicado do que o downlink. A IA está invadindo as redes e uma das consequências é que você não pode mais gerenciá-las apenas com seres humanos.
Quando a gente pensa em downlink, uma das soluções é a CDN (content delivery network), para agilizar o download de conteúdo. E no uplink? Tem alguma solução que possa fazer o que a CDN faz, só que ao contrário?
O Edge Computing será a CDN do uplink. Imagina uma câmera de segurança captando imagens. Se tiver que levar até um data center distante para inferir, você vai ocupar o backbone para ir e voltar. Para certar aplicações, como óculos de realidade aumentada, isso precisa ser em tempo real. O ideal é processar a imagem na torre mais próxima, com baixíssima latência. Você precisa, portanto, ter o recurso computacional perto. E também é importante ter um slice de baixa latência.
E quanto ao uso de IA na gestão de redes autônomas?
Para gerenciar isso, gerenciar os slices, a operação, o uplink, a qualidade de serviço, você não pode mais ter seres humanos sentados num NOC de operadora, observando alarmes. Tem que ter IA operando as redes. Como é que vai funcionar isso, na prática? Você vai ter apps, que a gente chama de rApps, para a rede de acesso (RAN), e cApps, para o core. Serão apps não só da Ericsson, mas de outros fabricantes, de ecossistemas, de consultorias. Apps que podem ser desenvolvidos inclusive pelas operadoras. E esses apps fazem várias coisas: um gerencia energia; outro, qualidade de rede; outro, anomalia de rede; outro, uplink etc. Por cima dessas apps você tem um agente de AI, que vai tomar decisões baseadas no contexto. Para fazer um paralelo, é como se fosse um carro, com um app do ABS, um app do rádio, um app das janelas, um app do freio, um app do acelerador etc. E um agente orquestra isso tudo, respondendo as intenções da operadora. O agente transforma a intenção em ações nesses rApps, o que hoje é feito pelo NOC.
Como as intenções da operadora vão ser transmitidas para o agente?
O representante da operadora vai poder falar a sua intenção. Digamos: “minha intenção é diminuir o churn do pré-pago”. Ou a minha intenção é “proteger a rede ao redor do Maracanã nos dias de jogo”. Daí o agente vai planejar como atender a requisição.
É preciso haver bastante cuidado no controle de acesso a uma ferramenta assim…
Vai ter bastante segurança. E sempre vai ter supervisão humana. Porque um dos pontos importantes é você entender como que a tua intenção está sendo traduzida em ações. Você poderá auditar.
Você já tem uma interface para isso?
Sim, um protótipo. É quase como um CTO ou COO virtual.
Desse jeito, qualquer um pode virar um COO de operadora? Basta falar o que quer, mesmo sem usar linguagem técnica?
O nível de intuição e de conhecimento da pessoa vai para uma outra camada. Falava-se o mesmo quando se criou o NOC: “Qualquer um agora pode consertar um defeito da rede”. Antigamente, tinha que ir para a rua consertar. E agora é só pedir. Mas aí entra o ponto de segurança que você falou. Para você ter essa camada, cada vez mais se dará ênfase a redes confiáveis, seguras e resilientes.
Por onde vai ser o acesso a essa ferramenta? Vai ficar dentro do NOC justamente para estar protegido em termos físicos? Ou o COO vai poder dar ordens ao agente pelo próprio celular?
Eu não sei essa resposta, mas arrisco dizer que vai poder fazer isso de qualquer lugar, contanto que esteja autenticado.
Mas a segurança começa bem antes. A gente anunciou na semana passada a Trusted Technology Alliance com Microsoft e várias outras empresas. Isso pega todo o stack, do chip até a cloud, passando por conectividade, por servidores etc. É para dar à operadora a garantia que todo stack passou por rigorosa auditoria de segurança, seja da governança das empresas, de metodologias de desenvolvimento, teste e certificação de software, enfim, há toda uma interoperabilidade e criptografia.
Em que grau que a gente está de autonomia de rede hoje no Brasil e no resto do mundo?
Estamos em 2.5 em uma escala até 5 criada pelo TM Forum. Algumas operadoras já estão em 2.9 ou 3.
Quais são os marcos para essa pontuação?
O nível 5 é uma rede totalmente autônoma, inclusive, a intenção. Esse é o mais assustador, porque no nível 4 o sistema ainda recebe a ordem do COO. No nível 4, portanto, tudo é automatizado, exceto a intenção. No 5, até a intenção é automatizada.
Como estamos no Brasil?
A gente anunciou com a Vivo o uso de rApp para detecção de anomalia em células da rede. Então, ao invés de você produzir um relatório, é um rApp que faz isso. Eu diria que o Brasil está na linha de frente da automação de redes. Não está atrasado.
As interfaces dos rApps para a rede são todas padronizadas. Nós estamos já comercializando e implementando essas camadas antes do agente. Esse rApp da Vivo está hospedado na AWS.
Assim como eu posso criar um rApp, outros podem criar também. Haverá dezenas de desenvolvedores de rApps para cada função da rede.
Quando você cria um rApp, digamos, para gestão de energia, precisa criar versões para cada fornecedor de rede?
Não. Em tese é multi-vendor.
Como estão os preparativos para o 6G? Eu vejo as operadoras cautelosas. Não querem acelerar. E mesmo os vendors; são poucos aqueles falando do assunto. Não estou ouvindo falar tanto de 6G nesse período pré-6G do que eu ouvia falar de 5G no período pré-5G. O pessoal ainda está esperando, buscando um retorno sobre o investimento em 5G?
A gente provavelmente vai ver 6G na Olimpíada de 28, em Los Angeles. Será um pré-6G. Mas eu acho que você tem razão: se fala menos agora, porque a transição para o 6G não vai ser um salto quântico como foi do 4G para o 5G. Quando a gente olhar em 2027/2028, o que aconteceu com o 5G, veremos que terá sido bem diferente do 4G.
Mas o que vai ser o 6G?
O 6G vai ter melhor eficiência energética, vai ter mais velocidade, vai ter menor latência etc. Já vai ser preparado para IA. Vai ser nativo de IA, embora ainda existam dúvidas sobre aonde vai ser feita a inferência, se na borda, com edge computing, ou em um data center no site. E quem vai ser o dono: se vai ser a operadora ou o hyperscaler ou um terceiro. E haverá a parte de sensing. Nós anunciamos na semana passada que fizemos o primeiro teste de sensing no Texas.
O que é o sensing?
Trata-se de usar a rede como uma espécie de radar. As torres vão medir os reflexos do sinal: o tempo que o sinal foi e voltou e também o doppler, que é a variação de frequência. O tempo significa a distância de um objeto. A variação de frequência indica movimento. Com isso, é possível construir uma imagem e detectar objetos, pessoas etc. Dependendo da frequência, é uma imagem com maior ou menor resolução. Só não dá para ver a cor da coisa. É como um radar, como um ultrassom.
É uma imagem em 3D?
Sim, em 3D. O teste da semana passada foi feito para detectar um drone. Esse drone enviava sua posição por GPS. Paralelamente, medimos a posição dele com a rede por meio dos reflexos para ver se coincidia o que o GPS. Na tela eram dois pontinhos, um vermelho que era a medição da rede e outro verdinho, do GPS. Ambos coincidiam. Até aconteceu uma coisa curiosa: apareceram outros dois pontos de repente. Eram dois passarinhos detectados pela rede.
Me soa como a evolução dos antigos serviços de localização por triangulação de rádio-base (ERB), os antigos Location Based Services (LBS).
Sim, só que o LBS só conseguia localizar objetos com SIMcard. No 6G será possível detectar qualquer coisa dentro da área de cobertura, como pássaros voando.
A primeira aplicação que imaginamos é para defesa nacional. Lembra daquele ataque de drones na Ucrânia? Os caras estacionaram um caminhão perto do aeroporto, dentro da Rússia. E destruíram vários aviões. Os radares não são capazes de enxergar objetos pequenos e que voam muito baixo. Então, no 6G você transforma a rede em um grande sensor.
A segunda aplicação é gestão de frotas aéreas, de frotas terrestres, de população.
É revolucionário. Esse serviço chama-se ISAC: Integrated Sensing and Communications.
Bom, o 6G vai precisar de mais espectro. Já definiram quais faixas?
Não. Esse é um outro ponto que está em discussão, mas vão ser espectros mais altos e haverá o reuso dos espectros baixos e do próprio 5G.
Redcap no Brasil: vocês fizeram uns testes recentes com a Qualcomm. Quais são suas expectativas?
Eu acho que o Redcap é uma boa solução pelo potencial de diminuir custo para a FWA e para a IoT. São os casos de uso que a gente está vendo pela frente. O RedCap para wearables e para câmeras consegue chegar a 200 Mbps, o que já é uma super qualidade para pôr no mercado como banda larga .
Tem que mudar alguma coisa na rede?
Sim, mas é uma configuração por software. Você reserva um pedacinho do espectro, mas não tem implicação muito grande .
Já tem dispositivos?
Tem CPE de FWA, mas os demais dispositivos estão vindo ainda.
O que vai vir primeiro: a rede ou os dispositivos?
A rede vem antes, porque é mais fácil. É como as redes privativas. Ela já estão lá e agora os dispositivos estão vindo.
Sobre redes privativas, a Ericsson ganhou um contrato importante com a Copel em 450 MHz. Há outras licitações em andamento de utilities, como Cemig e CPFL, mas que foram interrompidas depois que a Anatel anunciou a intenção de leiloar a faixa para 450 MHz. A Ericsson atua dos dois lados (para operadoras e para redes privativas). Com quem deveria ficar essa faixa?
É uma incerteza regulatória. Nós não temos uma preferência. Nosso modelo de negócios é híbrido, tanto com as operadoras, quanto para missão crítica. Em missão crítica temos muitas redes para mineração no Peru e no Chile, e agora dois portos contratados para implementar no Brasil, um no sudeste e outro no nordeste. Mas a gente não vai direto ao cliente. Não vendemos direto ao mercado. Por exemplo, na Copel foi pela Hughes.
Foto no alto: Rodrigo Dienstmann no estande da Ericsson. no MWC26 (Crédito: divulgação)


