Era 2023, quando Fernanda Onofre, fundadora da Wood Lab, deixou a capital do Acre, Rio Branco, e foi a São Paulo para acompanhar o marido em uma nova empreitada, dedicada aos chatbots. Formada em engenharia civil, a pesquisadora começou a trabalhar com o companheiro, entrando em um universo de tecnologia e inovação. “Eu comecei a entender esse ecossistema de startups”, relembra. Em meio à nova rotina, ela conheceu uma pessoa do Inovabra, espaço de inovação do Bradesco, que dividiu com ela a saudade do Norte.

“No meio dessa conversa, comentei que também sentia falta de trabalhar com algo de lá, foi aí que ela comentou do edital Conexão Floresta, realizado em Manaus”, afirma. O objetivo da iniciativa era encontrar projetos tecnológicos que fossem capazes de reconhecer a madeira da floresta local e Onofre não pensou duas vezes para tentar.

Para desenvolver sua ideia, ela contou com a ajuda do marido, que é cientista de dados, e do irmão, que é engenheiro de software. “Fizemos várias visitas a Manaus e ao interior do Amazonas, até porque o edital exigia conhecimento da população local. Ali vimos que a economia gira em torno de toda a cadeia da madeira e que se tratava de um setor carente de tecnologia”, explica. Segundo ela, a extração da madeira tem como principal dificuldade a identificação das espécies.

O resultado da parceria e das viagens foi a criação do Wood Chat, uma inteligência artificial conversacional capaz de identificar espécies de madeira por meio de foto enviada via WhatsApp (Android, iOS) — o que trazia maior garantia de funcionamento em regiões de baixa conectividade —, que venceu o edital. Com o prêmio de R$ 90 mil reais, a engenheira resolveu apostar na ideia e criar a startup Wood Lab. “Eu vi uma oportunidade de negócio”, revela.

Novas frentes

O primeiro passo para deslanchar os negócios foi dar início aos atendimentos. De acordo com Onofre, a startup conseguiu fazer uma prova conceito na Mil Madeiras, do Grupo Precious Wood, um dos maiores do país. Ali, a Wood Lab diferenciou duas espécies que são iguais a olho nu, a violeta e o roxinho. Um alívio para a madeireira que trabalha com ao menos 15 espécies e precisa do reconhecimento para o preencher o Documento de Origem Florestal (DOF), item obrigatório para a exportação de espécies florestais nativas.

O episódio fez com que o Wood Chat fosse dividido ao meio. A parte voltada para identificação saiu do WhatsApp para um portal, já que dentro do aplicativo de mensageria as imagens perdem qualidade, e foi denominada Woodvision. A conversacional permaneceu no WhatsApp, com a assistente virtual e professora da floresta Violeta interagindo com os usuários.

Além dessas ferramentas, a empresa atualmente conta com o Wood Catalog, uma espécie de banco de dados sobre espécies típicas da floresta, e o Wood Pass, um rastreador que mostra a origem da madeira exportada à Europa — destino de 41% do que é extraído no país. As empreitadas renderam prêmios, dentre eles, um no desafio WhatsApp pela Amazônia, e trouxe reconhecimento. Recentemente, a Wood Lab recebeu uma proposta para testar a Violeta em uma rede de escolas. Com o crescimento, ela também passou a ter um laboratório de madeira, no interior do Acre. O local tem 100 hectares de mata nativa.

Ceticismo e machismo

Desde os tempos de faculdade, Onofre nunca teve receio em botar a mão na massa. Ao longo dos estudos de engenharia, ela fez questão de buscar um estágio e começou a se oferecer para trabalhar em obras, sem remuneração. A ousadia — e o privilégio, como ela mesma chama — a levou para trabalhar em Rondônia, anos depois, onde chegou a ser diretora de obras da cidade de Ji-Paraná.

Com a mudança para o setor de tecnologia e sustentabilidade, a pesquisadora foi questionada diversas vezes sobre o seu conhecimento e encontrou na academia a resposta. “Resolvi fazer um MBA online de manejo florestal e educação ambiental, mas achei ainda pouco”, comenta. Foi então que decidiu fazer um mestrado. Inicialmente como aluna especial da Universidade de Brasília (UNB), hoje ela é mestranda do curso de Desenvolvimento Sustentável. “Mesmo sendo uma mulher, engenheira civil, eu posso fazer o que faço e falar com propriedade sobre o assunto, não tenho medo dos homens”, diz.

Foto: Fernanda Onofre, fundadora do Wood Lab/Wood Lab

 

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