O Brasil vive um momento decisivo na corrida global por infraestrutura digital. Enquanto grandes economias estruturam políticas agressivas para atrair data centers, inteligência artificial e serviços intensivos em processamento de dados, nós ainda discutimos se teremos ou não um ambiente minimamente competitivo para receber esses investimentos.

O debate sobre o Redata nunca foi sobre privilégio fiscal. Sempre foi sobre estratégia nacional.

A proposta surgiu como um mecanismo transitório, pensado para vigorar até a plena implementação da reforma tributária. Seu objetivo era claro: permitir a importação de equipamentos de alta tecnologia destinados à construção de data centers, criando um ambiente de competitividade enquanto o novo sistema tributário não estivesse em funcionamento. A partir de 2027, com o modelo de crédito e compensação previsto na reforma, os incentivos perderiam sentido. O Redata era, portanto, uma ponte. Uma solução de transição.

O problema é que o tempo não trabalha a favor de quem hesita.

O setor produtivo já está em movimento. O estudo “Transformação Empresarial: Inovação Tecnológica, seu Uso e os Impactados na Indústria Brasileira”, realizado pela IDC para a ABES em 2025, mostra que 79,2% das empresas utilizam ou planejam utilizar inteligência artificial, e 89,7% já utilizam ou pretendem utilizar IA generativa.

Mais do que intenção, há investimento estruturado: 52% das empresas afirmam já estar investindo significativamente em IA generativa, com plano de gastos definido para os próximos 18 meses. Além disso, 75% pretendem aumentar o orçamento de TI em 2025, e mais de 60% projetam crescimento adicional nos investimentos em IA nos próximos dois anos.

Ou seja: as empresas brasileiras decidiram acelerar.

Mas acelerar para onde, se a base estrutural não acompanha?

A própria pesquisa IDC/ABES indica que a aplicação de IA na indústria brasileira ainda está em estágio moderado de desenvolvimento. Para avançar, é necessário investir em infraestrutura de TI, modernização de sistemas e capacitação. Sem data centers robustos, capacidade computacional local e armazenamento seguro, a expansão da IA se torna limitada ou dependente de processamento fora do país.

E há um dado estrutural que reforça essa urgência. Segundo o Panorama Setorial da Internet (Número 4, novembro de 2025), dos 465 data centers existentes no Brasil, 53,8% estão concentrados na Região Sudeste. A Região Sul responde por 18,5% e o Nordeste por 16,1%, enquanto Norte e Centro-Oeste possuem apenas 4,1% cada. Essa concentração revela não apenas um desequilíbrio territorial, mas também o desafio de ampliar e descentralizar a infraestrutura digital brasileira. Se já partimos de uma base assimétrica, perder investimentos neste momento significa aprofundar ainda mais essa concentração.

Isso não é uma abstração teórica. As principais aplicações de IA hoje nas empresas brasileiras estão concentradas em análise de grandes volumes de dados (66%), previsão de tendências (55%) e automação de processos (50%). Todas essas iniciativas exigem infraestrutura de processamento intensivo. Não há transformação digital sem capacidade computacional.

Ao mesmo tempo, 61% das organizações utilizam ou pretendem utilizar IA em segurança cibernética, o que reforça a dimensão estratégica da infraestrutura local: proteção de dados, soberania digital e resiliência operacional dependem de capacidade instalada no território nacional.

A construção de um data center de grande porte leva, em média, 18 meses. Decisões de investimento são tomadas com base em previsibilidade regulatória, estabilidade fiscal e segurança jurídica. Quando esses elementos falham, o capital simplesmente atravessa a fronteira. Empresas globais não aguardam indefinições políticas. Elas buscam jurisdições onde o ambiente é claro e confiável.

O mercado global de TIC ultrapassa US$ 5 trilhões. O Brasil já figura entre os maiores mercados de TI do mundo. Mas tamanho de mercado não é sinônimo de protagonismo tecnológico. Protagonismo exige política industrial coerente com o momento histórico.

Sem mecanismos de atratividade econômica, perdemos competitividade frente a países que disputam o mesmo espaço no chamado Sul Global. Enquanto debatemos a viabilidade jurídica de incentivos transitórios, outras nações estruturam políticas coordenadas para receber investimentos bilionários. O investimento segue o caminho da menor incerteza.

É importante deixar claro que o desafio não é técnico. O setor construiu soluções juridicamente viáveis, apresentou estudos de impacto e dialogou com diferentes áreas do governo. A questão é harmonizar responsabilidade fiscal com estratégia de desenvolvimento.

A Lei de Diretrizes Orçamentárias impõe restrições à criação de benefícios em ano eleitoral. A Lei de Responsabilidade Fiscal exige compensações. São mecanismos legítimos. Mas desenvolvimento econômico também é responsabilidade pública.

O Redata foi concebido como instrumento temporário. Não se tratava de um programa permanente de desoneração, mas de uma alavanca para viabilizar investimentos estruturantes antes da consolidação do novo modelo tributário. Sem ele, entramos em 2026 com aumento de custos de importação, indefinição normativa e uma reforma que só produzirá efeitos plenos a partir de 2027.

Nesse intervalo, o mundo continua avançando.

Quando falamos em data centers, falamos de eficiência operacional, de aumento de produtividade e de inovação — resultados que 51% das empresas esperam alcançar de forma significativa com o uso de IA nos próximos cinco anos. Falamos de competitividade industrial e posicionamento geopolítico.

A decisão que o país precisa tomar é simples: queremos ser protagonistas na economia digital ou espectadores?

O investimento em infraestrutura digital não espera. Ele exige previsibilidade. E previsibilidade não é um favor ao setor privado; é requisito básico para qualquer política pública que pretenda transformar a realidade econômica de um país.

O Brasil tem capacidade técnica, mercado e empresas dispostas a investir. Os dados comprovam isso. O que falta é decisão estratégica. E, na economia digital, cada mês de indecisão amplia a distância entre quem lidera e quem assiste ao jogo do lado de fora.

 

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