É praticamente impossível não pensar na Nokia como uma referência no mercado móvel. Só que, diferentemente do que se pode presumir, ela nem sempre foi atuante nesse setor em mais de um século de existência. Fundada em 1865, por Fredrik Idestam, a Nokia começou sua jornada como uma fábrica de celulose, mas algumas décadas depois, com uma nova unidade – próxima à cidade homônima –, ela passou a atuar como geradora de energia elétrica. Só que essa não seria a sua única transição.
Pouco tempo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a companhia entrou em um período de declínio, ficando à beira da falência. Como resultado, ela foi adquirida pela Finnish Rubber Works — fabricante de produtos de borracha, muito conhecida por suas galochas —, que queria manter o fornecimento de energia. Com a integração da exportadora de cabos telefônicos e elétricos, Finnish Cable Works, em 1922, as três empresas se fundiram, formando um conglomerado de produção de cabos eletrônicos e cabos, a Nokia.
Novo rumo
A partir de 1960, a empresa começou a atuar no setor de tecnologia móvel. A produção, inicialmente, teve como foco o rádio-telefone para o exército finlandês. A expansão de mercado aconteceu mais de 20 anos depois, quando a Nokia lançou o seu primeiro telefone para carro, chamado de Mobira Senator. Em 1987, com o Mobira Cityman, a marca entrava oficialmente no mercado móvel. O seu aparelho portátil, no entanto, ficou conhecido como “Gorba”, já que o presidente soviético, Mikhail Gorbachev, foi fotografado com ele em mãos.
Essa guinada levou a Nokia a, em 1992, focar na produção de telefones celulares e, aos poucos, se desfez dos seus demais negócios. A decisão coincidiu com o avanço do padrão GSM, o que impactou positivamente a sua expansão global. Ainda naquele ano, o então primeiro-ministro da Finlândia, Harri Holkeri, fez a primeira chamada do mundo com a tecnologia, usando modelos da Nokia, e a empresa lançou o seu primeiro celular GSM digital, o Nokia 1011. Começavam ali, a década de ouro da marca.

Mobira Cityman 900, da Nokia. Foto: reprodução/Mobile Phone Museum.
Do topo à inexistência
No ano de 1994, a marca finlandesa lançou a série 2100, a primeira a ter o toque Nokia Tune. Os modelos fizeram um imenso sucesso, a ponto de a empresa totalizar 20 milhões de unidades vendidas, número 50 vezes maior do que ela esperava. Quatro anos mais tarde, a Nokia já dominava o mercado e, entre 1996 e 2001, a empresa viu seu faturamento avançar de 6,5 bilhões de euros para 31 bilhões de euros. Em pleno auge, o negócio era estimado em 200 bilhões de libras esterlinas e representava 25% do PIB finlandês.
O pioneirismo da marca manteve-se em alta após a virada do século. Um exemplo disso foram os toques de celular musicais, que a Nokia passou a produzir, após fechar um contrato de exclusividade com a gravadora EMI, com duração de seis meses. No entanto, a marca finlandesa começou a mostrar sinais – bastante sutis – de que ela não estava tão bem quanto parecia.
Em 2001, por exemplo, ela demitiu 1 mil funcionários por conta de uma desaceleração do mercado, mesmo alcançando um faturamento de 31 bilhões de euros. Três anos mais tarde, ela afirmou que, embora fosse a marca líder, estava perdendo espaço para concorrentes. A chegada do iPhone ao mercado, em 2007, começou a tornar o cenário mais difícil, já que naquele ano, a Nokia precisou fazer um recall de 46 milhões de celulares.
A sequência de anos ruins acumulou-se e, em 2012, o prejuízo passava de 1 bilhão de libras esterlinas. Em 2013, a divisão de aparelhos móveis foi licenciada para a Microsoft por 5,44 bilhões de euros.
Entre idas e vindas
Enquanto o coração da marca finlandesa se manteve e é protagonista até os dias atuais na telecomunicação, os celulares não seguiram o mesmo caminho. Após a aquisição da marca pela empresa de Bill Gates, novos modelos da Nokia – da série Lumia – chegaram ao mercado com o sistema operacional Windows Phone.

Nokia Lumia 1020. Foto: Andy H. Cheng/Wikimedia Commons
Acontece que a tecnologia da Microsoft já não era muito popular. Tardiamente, ela entrou em um mercado cujo domínio era — e continua sendo — disputado de forma acirrada por Android e iOS. Além da falta de timing, o sistema operacional não tinha tanta oferta de aplicativos em sua loja, ficando na casa dos milhares, bem abaixo dos milhões de ferramentas disponíveis nas plataformas concorrentes. Mesmo com a boa recepção do mercado com o Lumia, essas questões impediram que o projeto avançasse.
Em 2016, com o fim do contrato, uma empresa chamada HMD Global, de ex-executivos da Nokia, passou a ser responsável pela marca no mercado de celulares. Após dez anos de parceria, o contrato chegou ao fim e, mesmo antes, a HMD já se movimentava para consolidar seu nome no lugar da Nokia.
Foto: Sede da Nokia, em Espoo, na Finlândia. Reprodução/Nokia.


