Depois de mineradoras, siderúrgicas, distribuidoras de energia e indústrias de bens de consumo implementarem redes celulares privativas (RCPs) para ganharem maior eficiência em sua produção, agora é a vez das emissoras de TV descobrirem os benefícios dessa tecnologia para a transmissão de dados. Neste caso, não são redes permanentes, mas temporárias, montadas e desmontadas rapidamente para a cobertura de eventos ao vivo, como festivais de música, eventos esportivos e manifestações populares. Emissoras como Band, Globo e TVE do Espírito Santo já experimentaram em eventos como Carnaval, F1, Lolapalooza e RockInRio. Os resultados nas provas de conceito foram positivos e agora as emissoras começam a avaliar a incorporação de RCPs em seu dia a dia.

Não é novidade o uso da rede móvel por emissoras de TV para coberturas ao vivo. Há bastante tempo, cinegrafistas utilizam as chamadas “mochilinks”, mochilas com SIMcards de operadoras móveis para envio de imagens em tempo real. O problema é que as mochilinks se conectam à rede pública, ou seja, a mesma na qual os demais assinantes de uma operadora estão conectados. Se for um evento com grande concentração de pessoas, a capacidade da rede é dividida entre todos, o que pode afetar a qualidade da transmissão do vídeo.

A rede celular privativa resolve esse problema, pois é uma infraestrutura distinta da rede pública e uma frequência também diferente. Na prática, a RCP garante maior estabilidade e segurança na transmissão.

“A Globo tem adotado esse formato para uma ampla gama de propósitos, especialmente em grandes eventos como o carnaval, festivais de música, manifestações e eventos esportivos, onde a presença massiva de público, aglomerações e o uso intenso das redes públicas são comuns”, relata Tiago Facchin, gerente de tecnologia da Rede Globo, em conversa com Mobile Time.

A Band fez uma prova de conceito (PoC) com uma RCP 4G durante o desfile das escolas de samba da Série Ouro (antigo Grupo de Acesso) do Carnaval do Rio de Janeiro deste ano, usando a faixa de 2,3 GHz. “Fizemos isso para sair da briga por frequência. O grande problema antes era a densidade de pessoas”, explica Ítalo Aureliano, engenheiro de projetos da Band.

A Telesys, representante no Brasil de equipamentos da Baicells, já realizou quatro PoCs de RCPs para duas emissoras e uma prestadora de serviços para emissoras. “É uma alternativa econômica, confiável e versátil para terminais”, resume Marco Szili, sócio-fundador da Telesys.

Montagem rápida e autorização para uso da frequência

Além de uma rede e frequência dedicadas, a RCP tem a vantagem de ter uma montagem rápida. Em geral, é necessário apenas um dia antes do evento para instalar a rede e testá-la. Com a miniaturização das antenas 4G e 5G, essas podem ser instaladas em postes ou andaimes.

“A principal vantagem reside na flexibilidade proporcionada pela tecnologia, garantindo a confiabilidade necessária para nossas aplicações. Essa flexibilidade vem acompanhada de uma significativa redução na infraestrutura e consequente redução de tempo para instalação”, confirma Facchin, da Globo.

Contudo, há um trabalho regulatório que requer mais antecedência e que consiste na obtenção de uma autorização junto à Anatel para a operação. É preciso fazer o pedido com pelo menos 30 dias de antecedência.

Há várias frequências que podem ser utilizadas para RCPs, dependendo da tecnologia adotada, se 4G ou 5G. É possível usar faixas como as de 700 MHz, 2,3 GHz ou 3,7 GHz.

O backhaul para envio dos dados às centrais de edição das emissoras pode ser feito por fibra ou por satélite, dependendo da disponibilidade no local. A tecnologia escolhida impacta na latência.

Velocidade de transmissão: 4G ou 5G?

Nos testes realizados pelas emissoras com RCPs em 4G a velocidade de transmissão tem ficado entre 6 Mbps e 12 Mbps, o que pode ser suficiente para envio de imagens em full HD, mas não com resoluções maiores, como 4K. Se for preciso maior qualidade, é preciso montar uma RCP 5G.

A avaliação do uso do 5G é prioridade hoje na Globo. “Nesse momento, estamos investindo tempo e recursos no entendimento de como as redes privadas em 5G podem mudar de forma significativa a forma como realizamos os eventos, nos permitindo ter maior capacidade de uplink, viabilizando que os eventos possam ser operados remotamente e na sua totalidade por 5G”, comenta Facchin, da Globo.

Mas o 5G gera outro problema: seu alcance é menor, o que obriga a instalação de mais antenas para cobrir uma mesma área para a qual o 4G requer menos equipamentos.

Microlink ameaçado

A RCP também é uma alternativa ao uso dos chamados “microlinks”, que consistem em uma estrutura de antenas para comunicação ponto a ponto. Além de requerer visada para o envio das imagens, o microlink compete com outras transmissões em frequências próximas, especialmente em eventos onde há muitos outros serviços sem fio em operação, como em uma corrida de F1, em que há telemetria dos veículos, câmeras dentro dos carros, comunicação das equipes etc.

“O alinhamento e a coordenação que precisam ser feitos entre todo mundo na F1 é muito exaustivo”, relata Douglas Militão, coordenador de engenharia de transmissão da Band. E mesmo com tudo acertado e testado antes da corrida, no dia do evento aparecem novas interferências e a emissora é obrigada a aumentar a potência do equipamento pata conseguir transmitir as imagens.

Os técnicos da Band acreditam que as RCPs não vão substituir completamente os microlinks, mas estes ficarão restritos a ambientes mais controlados. “O microlink atende cada vez menos a demanda da dinâmica de TV”, acrescenta Luiz Chiapetta, diretor de redes privativas da Ownet.

RCP como serviço

Embora as emissoras de TV contem com suas próprias equipes de engenharia para cuidar da montagem de RCPs temporárias para a transmissão de eventos ao vivo, pode valer a pena terceirizar esse processo. É pensando nisso que surgiu a Ownet, braço de rede celular privativa da 2Live, fornecedora reconhecida de mochilinks no mercado brasileiro.

“Nossa proposta, como parceiro das TVs, é oferecer uma solução de rede privativa como serviço. Não é preciso criar uma telco dentro de uma emissora, cujo core é conteúdo”, argumenta Chiapetta, da Ownet.

A Ownet cuida da parte regulatória, implementa a RCP, faz o gerenciamento dos SIMcards, cuida do handover, e pode oferecer aplicações extras, como a comunicação entre técnicos em campo da emissora usando smartphones conectados à rede privativa em vez de rádios de custo alto. Para o gerenciamento da rede, utiliza o core da Pente Networks.

A Ownet participou dos testes da TVE no Carnaval de Vitória e da Globo no festival Lolapalooza.

Outra oportunidade de mercado vislumbrada pela Ownet é montar RCPs para uso por várias emissoras diferentes simultaneamente.

“Estou muito otimista. Já estamos partindo para projetos de implementação como serviço em ambientes conectados de alta demanda de retirada de sinal por uma ou várias TVs”, diz Chiapetta.

Network slicing: a carta na manga das telcos

As operadoras móveis tampouco querem ficar de fora desse mercado. Em vez de implementarem RCPs, elas podem oferecer um serviço similar a partir do recurso de redes 5G conhecido como “network slicing”, que consiste na separação de uma parte da capacidade da rede pública para uso dedicado a uma aplicação específica, como a transmissão de um evento ao vivo.

A Band já experimentou network slicing para transmissão da F1 em parceria com Claro/Embratel e a Globo, na transmissão do RockInRio e do Prêmio Multishow, com a TIM.

A principal vantagem do network slicing é dispensar todo o trabalho de obtenção de autorização e de implementação de uma RCP. Mas continua sendo necessário realizar uma série de testes prévios. E o modelo de negócios ainda não está definido pelas teles.

MPN Fórum

Band e Globo apresentarão cases de redes privativas durante o 4º MPN Fórum, dia 27 de junho, no WTC, em São Paulo. A Band será representada por Douglas Militão, coordenador de engenharia de transmissão, e  Ítalo Aureliano, engenheiro de projetos. A Globo, por Tiago Facchin, gerente de tecnologia, acompanhado por Cristiano Moreira, gerente de produtos 5G da Embratel. Além disso, Marco Szili, da Telesys, participará do painel de debate ao fim do evento.

A programação completa e mais informações sobre o MPN Fórum estão disponíveis no site www.mpnforum.com.br