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A atual pandemia do novo coronavírus (Covid-19) está com 209 mil casos e 8,7 mil mortes no mundo, sendo 904 casos e 11 mortes no Brasil, até o fim da tarde desta sexta-feira, 20. A velocidade do avanço da doença só não é mais rápida que a proliferação de informações nas redes sociais e aplicativos de mensageria. Neste cenário, Mobile Time buscou especialistas para entender os diferenciais da tecnologia hoje, em comparação com a pandemia de 2009 da Influenza A (H1N1).

Um deles é o médico e pesquisador José Gomes Temporão. Ministro da Saúde durante a crise do H1N1, Temporão lembra que foi difícil combater a doença, mas acredita que o cenário atual é pior: “A campanha foi exatamente a mesma. As medidas de prevenção não mudaram de lá para cá (alertas à população para lavar as mãos e evitar a aproximação com pessoas). Houve uma grande disseminação de medidas programática. Mas talvez em escala menor do que acontece hoje”.

“O vírus atual tem um grau de transmissibilidade e letalidade muito alta, om torno de 3%, enquanto que a letalidade das Influenzas é de 0,1 por 100. Ou seja, morre 0,1 pessoa para cada 100. No caso do coronavírus é de três óbitos para cada 100 pessoas. Ele parece ser mais agressivo que a Influenza”, completou.

Outro especialista ouvido por esta publicação foi Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do InCor. O principal nome brasileiro no desenvolvimento de vacinas hoje, Kalil lembra que as medidas foram similares, mas, acredita que a condição da Itália trouxe mais atenção às autoridades brasileiras.

“No H1N1 nós também fizemos isolamentos e tentamos comparar o vírus de forma semelhante. Não houve uma difusão midiática tão exponencial como essa. A gente até esperava mais casos com o H1N1, mas não teve. O que aconteceu recentemente na Itália foi realmente explosivo e pode ter mudado esse cenário”, disse Kalil. “O que existiu de avanço na tecnologia (científica) foi na vacina. Na primeira campanha de vacinação de gripe logo após o primeiro estouro (em 2010), as cepas do H1N1 compunham a vacina”.

Por sua vez, Juvêncio Furtado, professor de infectologia da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Saúde ABC-SP (CEUS-ABC) e chefe do departamento de infectologia do Hospital Heliópolis em São Paulo, lembra que o H1N1 atacava não apenas idosos, mas grávidas e crianças pequenas. Atualmente, o grupo de risco do Covid-19 são pessoas com mais de 65 anos de idade.

“Os vírus da série Influenza causam uma doença respiratória semelhante ao Covid-19, mas são diferentes. Na época, nós tínhamos remédio para tratar esse tipo de doença e a vacina saiu rápido (em nove meses). Quem era encaminhado para UTI tinha opção terapêutica. Por outro lado, os cuidados eram os mesmos. Tinha que dar condições para os pacientes respirarem, como o respirador”, elucidou Furtado. “A diferença naquela época é que o H1N1 atacava muito forte gestantes e crianças, não apenas os idosos. Hoje, nós temos um vírus novo, temos um vírus mutante, que ninguém tem imunidade. E o mais importante é que hoje ainda não tem remédio. E não tem vacina”.

Ainda assim, Furtado acredita que as tecnologias médicas avançaram bastantes nos últimos anos, como no desenvolvimento de remédios. Kalil também enfatizou que a tecnologia de vacinas e soluções médicas – como separação e mapeamento de genoma – também avançaram, e Temporão vê benefícios no uso apropriado de novas ferramentas de comunicação e da telemedicina, que foi autorizada pelo Conselho Federal de Medicina e seu uso em caráter emergencial está em trâmite a partir de um projeto de lei na Câmara dos Deputados.

A tecnologia em 2009

Em março de 2009, de acordo com uma pesquisa da Ericsson, as pessoas demoravam até cinco anos para trocar de celular. O mensageiro da moda era o SMS, os padrões LTE e WiMax brigavam para ver quem assumiria o 4G – que ainda estava sendo desenvolvido –, as vendas mundiais de smartphones foram de 139,29 milhões de unidades um ano antes, segundo o Gartner. Nokia tinha 47% do setor de celulares, ante 16% da BlackBerry. E a Apple era um player em crescimento com 8,2% do mercado.

No Brasil, o 3G era 1% da base, 1,5 milhão de um total de 152,3 milhões de celulares, de acordo com a Anatel. A população que acessava a Internet era de 55,9 milhões de brasileiros, segundo a PNAD de 2010. E o total de pessoas com acesso ao celular era de 86,4 milhões.

“Em 2009 a Internet ainda estava muito focada nos desktops. Em mensageria instantânea, não se usava WhatsApp, mas soluções para desktop. Então o raio de alcance era muito menor, restrito aos brasileiros que trabalhavam em frente a computadores. A lógica da informação era receptiva, vinda dos meios tradicionais, como rádio, TV, jornal, ou ativa, com a pessoa buscando no Google ou em sites dos grandes publishers. Na prática era conteúdo com selo de qualidade do bom e velho jornalismo e suas boas práticas. Não havia ainda essa hiperconectividade das redes sociais. A possibilidade de as coisas se alastrarem era muito menor que hoje”, relembra Leo Xavier, cofundador da Môre e um dos principais especialistas em mobile marketing no Brasil.

A tecnologia atualmente

Hoje, a penetração mundial do 4G passou dos 4 bilhões de conexões. Em 2019, no Brasil, foram vendidos 48,6 milhões de smartphones com um volume de R$ 56,7 bilhões de receita, segundo a IDC. Além disso, 70% da população brasileira acessa a Internet. De acordo com os dados de novembro do ano passado, há 108 milhões de conexões de pós-pagos e 120 milhões de pré-pagos, e o LTE responde por 62% do total de acessos. Além disso, o WhatsApp – que foi lançado em 2009 – agora está presente em 99% dos smartphones brasileiros, segundo Panorama Mobile Time/Opinion Box sobre mensageria móvel no Brasil de fevereiro deste ano.

Telemedicina, comunicação e mídia

Com este cenário de comunicações massivas, os especialistas acreditam que os desafios são outros.

“Não tinha tanta rede social em 2009, como tem hoje. Naquela época era mais o que se via na televisão. Também tínhamos o combate de evitar aglomerações e diminuição de viagens. Dessa vez é algo mais firme, nós tivemos ações mais enérgicas. Talvez pelo fato que ocorreu na Itália”, disse o diretor do InCor. “Por outro lado, um avanço que tivemos hoje foi nas informações em tempo real. É importante ter a informação de números de casos em real time. Daí você estuda, vê o que está dando certo e altera suas políticas públicas”.

Kalil disse ainda sobre outros avanços na ciência e na comunicação com a população. Em comunicação, ele vê como positivo o fato de que o mundo voltou a se interessar por vacinas. E surgiram novas tecnologias. Vale lembrar que diversos movimentos antivacinas (antivax, em inglês), surgiram no mundo nos últimos anos. E lembrou os desenvolvimentos tecnológicos na criação de vacinas com RNA mensageiro, testes com medicamentos retrovirais compartilhados por especialistas no mundo todo, software de transporte de órgãos e pesquisa científica, além do avanço da telemedicina.

“A comunicação aumentou muito. As formas de acesso ao pacientes também. A possibilidade de acesso às imagens, também. E aumentou muito a inteligência artificial sendo aplicada na medicina. Seja em imagens passadas em numérico e pixels, ou diagnósticos de lesões dermatológicas. Esse mundo todo mudou dramaticamente. Sem contar a entrada dos prontuários eletrônicos”, disse. “Na medicina tem toda a parte de informática, rotas de metabólicas, defesa de organismos e diferenciação de gene. Hoje em dia você pode pegar uma célula de uma lesão e isolar essas células de RNA mensageiro. Não precisa analisar mais o todo o genoma”.

Em relação à comunicação ao paciente e troca de informações, Furtado ressalta a necessidade de prudência na leitura de informações por parte da população. Além disso, o infectologista ressaltou o papel de destaque e confiança que a mídia traz em crises como essa. Mas o médico acredita principalmente na relação mais próxima com seus pacientes: “Qualquer um pode se vestir de médico e falar qualquer coisa. Essas informações não são confiáveis. O que nós fazemos muito é conversar com o nosso paciente, diretamente. Agora eu não falo em mídias sociais. Eu não posso jogar informações para quem não tem capacidade de entender. Gravar um vídeo ou áudio, isso tem uma dubiedade muito grande. Pode trazer situação de alarde. Nós não sabemos usar a mídia hoje. É preciso muito cuidado, entender quem lê e quem transmite a informação em massa. Por isso a mídia tradicional é a fonte mais confiável. Temos que tomar muito cuidado, quando a informação é rápida, tem que ter confiabilidade. Por outro lado, eu tenho facilidade de acesso a artigos científicos quase em tempo real. Desde que tenha sinal de Internet. Hoje, as revistas científicas estão todas online. Antes da Internet, mais atrás, demorava 15 a 20 dias para chegar às suas mãos”, completou.

Xavier, da Môre, sente falta de uma atuação mais pró-ativa das plataformas de comunicação no combate às notícias falsas. “Qualquer um fala ou transmite o que quer. E as plataformas, de certa maneira, atuam como puro pipe. Só que elas não são um dumb pipe, mas um smart pipe, porque têm algoritmos que entregam conteúdo. Poderiam usá-los para verificar a veracidade das informações. Estão perdendo uma grande oportunidade de se posicionarem positivamente e de testarem mecanismos de controle contra a desinformação”, critica.

Foto de Valter Campanato/ABr

Em 2010, José Gomes Temporão era ministro da saúde

Por sua vez, Temporão reconhece que o WhatsApp é uma ferramenta valiosa para disseminar informação de qualidade, mas concorda que o canal também serve para difundir fake news, como curas milagrosas. Ele cita como exemplo a troca de mensagens em relação a um medicamento que ajudaria a combater o coronavírus: “Circula nas redes sociais um medicamento sobre o uso de remédio da malária, hoje usado no tratamento de doenças reumatológicas e autoimunes que serviria para combater o Covid-19. Existe um estudo francês ainda preliminar, mas as pessoas estão comprando e estocando esse remédio. E é um medicamento que pode ter efeitos colaterais. Não posso correr para a farmácia e comprar um remédio que não tem nenhuma comprovação científica contra uma doença. Como lutar contra isso? Mais informações de qualidade. Portanto, o grande desafio hoje é o da comunicação, ao lado da medicina”.